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▼ Postagens (58)
  • O foco é outro

    22

    Nov
    22/11/2011 às 17h06

    Tem existido um empenho razoável por parte de empresas e mesmo dos governos, pelo mundo afora, para retirar as tais sacolinhas plásticas de circulação. Várias legislações municipais, estaduais, e até federais, estão sendo alteradas para garantir essa retirada, inclusive com o incentivo de utilização de sacolas retornáveis. E essa iniciativa é, sim, muito louvável, pela educação que desencadeia. Mas não é suficiente.

    Numa primeira vista, parece ser realmente uma panacéia essa solução e, aos pouco avisados, essa poderia parecer a grande solução para boa parte dos problemas ambientais. Sim, porque vemos pelos quatro cantos do Planeta o estrago que as tais sacolinhas plásticas provocam pelo meio ambiente, matando animais, poluindo rios, tirando a beleza de paisagens etc. E elas são bastante longevas; demoram muito para serem dissolvidas. Para coroar o frenesi em torno daqueles objetos poluidores, reportagens as mais diversas estão a apontar desde os exorbitantes números de sua fabricação ou o seu consumo desenfreado até os seus resultados nefastos, quando em vias de descarte.

    Mas quero chamar a sua atenção, leitor, para outras questões que ficam aí camufladas. E vou fazê-lo pela comparação com outro tipo de ação que, se isolada, leva aos mesmos resultados parciais e pouco efetivos.

    Sabe aquelas primorosas campanhas de mutirão de limpeza de lixo em ruas, represas, praias ou estradas? Daqueles que geram fotos de grupos felizes, compenetrados e cansados, mas satisfeitos com o resultado da sua labuta, ladeados de montanhas de sacos de lixo recolhido. Entretanto, o retorno, pouco tempo depois, aos locais de suas ações mostra que há pouca efetividade naquele tipo de iniciativa, se não for seguida de programas de conscientização de menor consumo, de separação dos diversos tipos de lixo, e de uma infra-estrutura que garanta a sua coleta seletiva e reciclagem.

    No caso das sacolas plásticas, não há dúvida de que a sua retirada do mercado é benfazeja. Mas e as outras incontáveis embalagens plásticas que acondicionam os mais variados e infinitos produtos que somos compulsoriamente incentivados a consumir?

    Em verdade, há um descompasso entre as reivindicações, que precisa ser apontado. Por um lado, somos bombardeados com a idéia de que consumir é preciso, para que a economia cresça e que todos tenham poder aquisitivo ... para consumir. E os itens de consumo ou são plásticos ou são embalados em plástico, em sua maioria.

    Ou seja, deixar de usar sacolas plásticas é importante, mas não é, nem de longe, suficiente. E não havemos de nos empertigar de arautos da sustentabilidade apenas em reduzir o consumo das tais sacolinhas. Nem mesmo de sermos exímios recicladores. O que é importante mesmo é que diminuamos, e muito, os nossos níveis de consumo, buscando fazer, ao máximo, as nossas próprias coisas. Em outras palavras, tentar ao máximo produzir a maioria dos nossos víveres e itens de necessidade restrita. Utopia? Não mesmo!

    Há uma infinidade de pessoas com essa proposta e esse estilo de vida pelo mundo todo. E ele é muito agradável e participativo, sendo que as ecovilas tendem a ser locais mais propícios para isso acontecer. Conto muito de como acontece a vida em uma ecovila no livro que escrevi há pouco tempo, de título “Um fazer diferente: vida em Ecovila”, em que relato a nossa experiência enquanto grupo em um conglomerado humano com essas características. Nos textos daqui do blog narro também várias das nossas experiências.

    Suzy Goldstein (www.viverdiferente.xpg.com.br)

     

     

     

  • Lugares idealizados e repressão

    14

    Nov
    14/11/2011 às 16h11

    Nós humanos vivemos um eterno ajuste em nossas vidas, entre aquilo que idealizamos e o que, efetivamente, temos em realidade, no nosso dia a dia, ao longo do nosso viver. Quase sempre é assim: sonhamos com o que para nós é o ideal, com aquilo que gostaríamos de fazer, de possuir, de sentir, de experienciar, de compartilhar, mas vivemos num constante rearrumar de caminhos, por conta, por um lado, das nossas projeções muitas vezes parciais e, por outro, de situações exteriores a nós, que naturalmente não controlamos e, muitas vezes, sequer vislumbramos.

    Entretanto, uma rápida olhada em algumas sociedades que se estabeleceram ao longo da história humana pode nos fazer ver o quanto o trabalho coletivo orquestrado, o quanto a idealização dos rumos comunitários, o quanto a persistência na busca dos ideais fez a diferença na qualidade de vida e na forma de pensar e de agir dos seus membros. E o mesmo acontece em âmbito individual. Quando temos uma vontade indeclinável, e não arredamos pé dos nossos objetivos, dos nossos desejos, daquilo que julgamos ser ideal, o Universo parece conspirar ao nosso favor e, mais cedo ou mais tarde, muitas vezes quando menos esperamos, vemos os nossos sonhos realizados; com aqueles ajustes impostos pela realidade, claro, mas muito próximos ao que invocamos.

    Infelizmente, entretanto, as pessoas costumam sucumbir aos percalços do caminho, seja por medo, por falta de persistência, por não conseguir vislumbrar alternativas mais flexíveis, por não terem aprendido a sonhar com ideais mais sublimes e mesmo pelo famigerado egoísmo. Com isso, elas se fecham, se resguardam, se defendem, vêem em tudo o perigo, em tudo vislumbram a presença do inimigo ou da catástrofe. Guiadas por esses sentimentos ou convicções rígidas, elas não se dão o direito de sonhar, de imaginar uma realidade menos pesada, mais criativa. Em nome da defesa da ordem e da propriedade, por exemplo, elas chegam a invocar as mais variadas formas de controle, de defesa e mesmo de repressão. E sabe o que é triste de se constatar? Essa é a regra de comportamento em nossa sociedade, tida como correta e protetora do bem comum.

    Todavia, sabendo que a nossa vontade e a nossa ação orquestrada e ponderada pode mudar os rumos das nossas histórias coletivas e individuais e que os ajustes e a reescrita de rumos é parte constitutiva da existência humana, pergunto: o que seria o ideal de uma sociedade para você, do ponto de vista do contato entre as pessoas e mesmo do perfil dos seus componentes? Um lugar/situação em que todos se tratassem como iguais em suas diferentes habilidades? Em que as pessoas, desde tenra idade, recebessem uma educação tal, que propiciasse a riqueza de idéias, a criatividade, a busca de soluções ponderadas e compartilhadas? Um lugar em que as inter-relações fossem baseadas em amizade e confiança mais profundas, apesar das sabidas diferenças inter-pessoais e das diferentes crenças advindas das histórias de vida de cada um dos seus componentes? Um lugar em que a tolerância, o respeito, a ponderação, a reflexão criativa fossem a tônica maior das nossas vidas? Enfim, um lugar em que conseguíssemos aceitar o Outro, com as suas limitações e suas escolhas — mesmo que para nós as suas atitudes e comportamentos não fossem ideais ou tão corretos assim?

    Mas os pessimistas bradariam incontestes que isso é utopia, que tal lugar/situação não existe e que pensar e agir assim, abrindo a guarda em favor da admissibilidade desregrada traz perigos inquestionáveis, que fragilizam a defesa do bem, da ordem e da propriedade. Para “engrossar o caldo”, por trás desse tipo de convicções estão indeclinavelmente as certezas dicotômicas, ideologicamente maniqueístas mesmo, dos lugares ocupados por ricos e pobres, por intelectuais e proletários, vagabundos e trabalhadores e por aí afora.

    Claro está, entretanto, que num espectro amplo de convicções (regidas seja pelas histórias de vida, pela visão de mundo ou pelas perspectivas egoístas de se situar em relação a si mesmo e ao Outro no espaço) limites de boa convivência ou de respeito mutuo precisam ser acordados e regras coletivas devem ser estabelecidas. Como fazer isso de forma criativa, ponderada e respeitosa para com as diferenças e os direitos individuais é que se constitui em uma grande arte, propiciada exatamente por aquela acima aludida forma flexível, agregadora e holística de entender as inter-relações, o Universo e a si mesmo.

    Centros educacionais e de convivência, que buscam um pensar e um agir crítico e criativo, respeitoso e holístico estão, ou pelo menos deveriam estar, permanentemente preocupados com a busca e a realização desse propósito. Pelo ajuste diuturno de situações, mas sempre com a visão maior de que os ideais devem ser agregadores e não discriminativos, de que não podemos nos descuidar da ação nefasta das ideologias imperantes sobre as nossas formas de ver e de agir no mundo, não devemos declinar, sob as mais variadas condições, da meta maior de inclusão e de construção de um mundo mais ajustado para nós mesmos e para as futuras gerações.

    Nesse sentido, entendo serem esses os motivos porque a USP deixou crescer o movimento reivindicatório dos seus alunos, nos acontecimentos dos últimos dias: para o exercício das manifestações e das reivindicações, com vistas a propiciar às gerações mais jovens a prática da argumentação e da elaboração de formas outras de agir e de pensar o mundo, em detrimento da repressão ou do controle puramente sistemático. Se em meio ao movimento estavam ricos, pobres, idealistas, oportunistas, desvairados ou arautos convictos da ordem, tudo isso é parte constitutiva do caldeirão das inter-relações sociais. Ao meu ver, a união de professores da Faculdade de Direito, de quem se diz serem mais legalistas e rígidos, com professores da Faculdade de Filosofia, tradicionalmente mais aberta a formas menos rígidas de entender o mundo, na coluna “Opinião”, do jornal Folha de S. Paulo, na última sexta-feira, foi um belo exemplo de coerência em defesa da flexibilidade de idéias e de busca de ideais menos engessados.

    Uma Ecovila, como um centro alternativo e resistente ao status quo destruidor imperante, com seus cantados propósitos sócio-ambientais e econômicos mais holísticos, deve naturalmente estar também afinada com ideais mais universais, com formas de ver o mundo e ao Outro mais flexíveis; enfim, com a busca de um sonho mais inclusivo, menos preconceituoso, mais abrangente. O que para muitos é desvario, quando se quer construir alternativas mais plausíveis de viver é necessário que estejamos abertos a novas formas de configuração das nossas convicções e atentos para a construção de uma realidade pautada em ideologias mais inclusivas e respeitosas. Enfim, repito, não devemos declinar, sob as mais variadas condições, da meta maior de inclusão e de construção de um mundo mais ajustado para nós mesmos e para as futuras gerações.

    OBS: Termino de receber esses endereços, com comentários sobre a situação na USP e os repasso a vocês, para reflexão.


    http://www.cartacapital.com.br/sociedade/ocupacao-patetica-reacao-tenebrosa/ - Artigo da Carta Capital

    http://temalguemaifora.wordpress.com/2011/11/10/usp-um-desabafo/

    http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/professores-da-usp-enviarao-carta-a-alckmin-contra-acao-policial/n1597363116944.html - Manifesto dos professores da usp

    http://www.amambainoticias.com.br/educacao-e-cultura/escandalo-na-usp-aperta-cerco-ao-reitor-polemico - Fatos sobre o reitor da USP, João Grandino Rodas

    http://blogs.estadao.com.br/marcelo-rubens-paiva/o-rancor-contra-a-usp/ - Texto de Marcelo Rubens Paiva

    http://www.facebook.com/notes/cleber-pelizzon/voc%C3%AA-n%C3%A3o-me-quer-como-aluno-da-usp/10150449372328142 - Texto interessante (precisa do facebook)

    Suzy Goldstein (www.viverdiferente.xpg.com.br)

     

  • Não-violência?

    01

    Nov
    01/11/2011 às 19h45

    Conseguimos ser não violentos? Sim, claro, diriam alguns! Não, a violência é constitutiva; praticamos violências de todas as ordens pelo simples fato de existirmos, diriam outros. O tema é instigante e pode definir a nossa forma de viver no mundo. Sendo assim, vamos dar asas aos raciocínios!

    Fiquei estarrecida no transcorrer desses últimos dias com a situação ocorrida na Líbia, especificamente com a atitude assumida por Gaddafi e com o seu arrasador desfecho, que o mundo conheceu de forma tão impactante. Em nome das suas convicções e da defesa do império, financeiro e político, que construiu ao longo de décadas, com a anuência da submissão, historicamente constituída, do povo daquela região, ele muito matou e morreu. Com a absoluta certeza de que a sua forma de ver e de agir no mundo era correta, o que o transformou em uma figura doentia e tirânica, ele preferiu morrer acuado, tirado de dentro de um bueiro, como um rato – mas de posse de um último símbolo do seu nefasto poder, que foi a tal pistola de ouro, ou folheada a ouro, sei lá.  Por outra via, o povo líbio, também em nome da defesa de convicções, o matou e festejou o ocorrido.

    Pergunto pra você: até onde você iria para defender o seu patrimônio ou as suas convicções? Sim, porque foi exatamente isso que aconteceu com aquele ditador e mesmo com o povo líbio. É por causa das nossas convicções, que nos arvoramos, que nos indignamos, que adoecemos e podemos até mesmo matar ou morrer, quem sabe! E as nossas convicções são normalmente regidas, em última instância, pelos nossos medos, pelos nossos apegos ou pelos nossos desejos de poder, dependendo da nossa situação ou das nossas características pessoais.

    É aí que lanço o desafio: imagine que as nossas ações socioeconômicas, políticas e ambientais nos levem a um estado de crise tal que multidões não tenham mais o que comer ou onde morar, por exemplo, e que terminem por querer invadir a sua casa e se apossar do que é seu. Como você reagiria? Morreria como Gaddafi na defesa do seu patrimônio e das suas convicções? Entregaria tudo e sairia, errante, ao encontro de uma sina incerta, mas possivelmente nada promissora? Que alternativas seriam plausíveis para esse estado de coisas?

    Pensar sobre situações-limite se constitui em um grande exercício filosófico que, por fim, pode nos ajudar a definir a forma como pensamos ou agimos no mundo, em retrospecto. Assim sendo, continuemos a investigar.

    Regidos pelas nossas convicções, damos vazão aos nossos mais recônditos ímpetos, às vezes abertamente, às vezes de forma camuflada — que podem transitar pela agressão física ou verbal e mesmo pelas mais veladas formas de protesto e imposição das nossas certezas, nos mais diferentes âmbitos das nossas inter-relações, seja em família, em grupos de amizade ou de trabalho.

    Numa recente discussão sobre a não-violência, com algumas pessoas pertencentes à Ecovila em que vivemos, alguns defendiam — com muita convicção, aliás —, a não-violência como sinônimo de tolerância, de abertura, de ponderação, numa postura mais voltada para uma não-violência incondicional. Outros, por sua vez, apesar de também entenderem ser a não-violência uma condição a ser alcançada, questionavam os limites dessa não-violência, frente, por exemplo, à injustiça extrema para conosco mesmos, ou para com terceiros. Novamente aí se punha a questão: em situações de agressão real ou de injustiça (interpretação que depende, sejamos pontuais, das nossas convicções e da nossa visão de mundo para definirmos o que seja uma agressão real ou injustiça), reagiríamos violentamente, talvez até dispostos a matar e/ou morrer, ou nos retiraríamos em um silêncio não violento? E quais os desdobramentos dessas nossas escolhas?

    Nesse ponto, mostra-se necessário definir mais acuradamente o termo não-violência, não é mesmo? Isso porque ao defendermos os nossos pontos de vista e as nossas convicções já criamos consideráveis resistências aos pontos de vista e às convicções do outro, podendo, inclusive, nos mostrar agressivos a ele, mesmo que para nós estejamos apenas a argumentar ou a “defender a verdade dos fatos”. Sabemos, também, que o nosso silêncio ou a nossa omissão podem ser extremamente agressivos e se constituir em estratégia de protesto ou desafio, por exemplo. Daí a necessidade de se apontar para a incoerência de alguns, ao cantarem a não-violência como forma de ação mas, ao mesmo tempo, defenderem, seja de que modo for, os seus pontos de vista — seja pelo silêncio em forma de protesto, seja pela resistência muda em nome das próprias convicções, seja pela agressão mostrada, todas essas modalidades podem, sim, ser consideradas de extrema violência.

    Volto a perguntar: o que significa ser não-violento? Ou mesmo, existe a não-violência incondicional?

    Se, por um lado, o ser humano se constitui no mundo a partir das interpretações, dos julgamentos e das convicções que instaura para si mesmo — porque, do contrário, ele não conseguiria se definir como ser individual, é o que nos diz a Filosofia — e, por outro, são exatamente essas interpretações e essas convicções que muitas e muitas vezes soam agressivas, o que significaria ser não-violento?

    Dizem algumas correntes de pensamento que a comunicação não violenta prevê saber ouvir o outro sem julgamentos e dizer de si mesmo, das situações ou dos seus pares sem pré-concepções. Estudos em análise de discursos, entretanto, mostram que esse tipo de fala é irreal e infundado, pela própria constituição do sujeito, acima apontada e pela sua inerência sócio-política. Em outras palavras, constitutivamente interpretamos, julgamos, fazemos juízos de valor, como condição da nossa existência e não como forma de maldade ou arrogância. Se tentássemos, assim, ser incondicionalmente não violentos, teríamos de não ser detentores de convicções e sempre ceder, em função dos acontecimentos, das ocorrências. Sabe-se que eventualmente isso pode até acontecer, mas para se alcançar tal estado é necessário que nos despojemos de bens, interesses ou certezas — é o que fazem alguns monges e monjas pelo mundo e através dos tempos: é como se tentassem deixar de ser sujeitos em si mesmos.

    O que dá para fazermos, em verdade, no mundo do dia a dia, é buscar amenizar os nossos ímpetos, sermos mais partilhadores, observadores e cuidadosos nas nossas inter-relações. É buscarmos, por outro lado, uma forma mais acentuada de equilíbrio entre emoção e razão, burilando-as. Mas é bem pouco provável, entretanto, que possamos garantir, com isso, a ausência de mal-entendidos ou a ausência de uma violência velada pelas interpretações, pela constituição humana, enquanto ser inter-relacional.

    A não-violência mostra-se, a partir de todas essas nuanças aqui apresentadas, um termo complexo, que precisa ser definido dentro de um espectro mais amplo, sob pena de, não o fazendo, incorrermos em sérias impontualidades e cairmos, novamente, em fortes pré-concepções, instigadoras de incômodos — ou em outros termos, das chamadas violências comunicativas, mesmo quando defendemos, incondicionalmente, a não-violência.

    O que é mais plausível dizer é que quanto mais despojados da necessidade de ter bens formos, ou quanto menos egoístas nos tornarmos, mais aumentam as nossas chances de ter uma posição mais pacífica no mundo e de provocarmos menos mal-entendidos nas nossas inter-relações. O que se torna essencial nos perguntar, em auto-reflexão, então, é se conseguiríamos ter, nas situações mais adversas, uma posição menos egoísta ou convicções mais amenas sobre propriedade ou poder, por exemplo?!

     

  • Atirar-se

    18

    Out
    18/10/2011 às 17h35

    Lobos internos
    Você já parou para pensar na coragem e na disposição das pessoas que deixaram um dia as suas terras para buscar vidas novas em outros países ou lugares? Pensem aí, por exemplo, nos imigrantes que para o Brasil vieram, falando línguas outras que não as suas línguas de origem, sem ao menos conseguir se comunicar com as pessoas do lugar, tendo que começar do nada, muitas vezes em terras inóspitas, cheias de bichos desconhecidos, e por aí afora!

    Ao longo da história da humanidade, inúmeros casos podem ser mencionados de pessoas ou grupos que não estavam satisfeitos com as condições de vida que tinham e partiram para outras realidades, construindo histórias alternativas e marcantes para as suas próprias memórias e para as memórias dos seus grupos.

    Costumava ser, inclusive, uma condição de rebeldia e de idealismo para os jovens buscar vivenciar novos horizontes, conhecer novas realidades e enriquecer a sua própria história. É o caso de estudantes que, em um determinado estágio das suas aprendizagens, sempre saíram em busca de vivenciar aspectos diferenciados de seus temas de interesse, procurando alcançar outras formas de conhecimento, outras experiências culturais, artísticas, técnicas, em comunidades as mais diversas.

    Mas tem sido raro encontrar pessoas que se deslocam, em busca de experiências mais orgânicas para o seu ser e para o seu aprimoramento e do seu grupo social. O que muito se vê é uma acomodação generalizada, uma aceitação de modelos e de condições que são, em verdade, degradantes, alienantes para o ser humano. Em nome de uma vidinha conhecida e supostamente mais segura e confortável, as pessoas ficam onde estão e se entregam aos discursos ideológicos sobre o que significa ter prazer ou sobre o que é importante alcançar.

    As pessoas, em verdade, têm preferido se esconder por trás de redes sociais, da internet e da televisão, buscam prazer em festas e em drogas as mais esdrúxulas e procuram “conforto” e “excitação” para as suas vidinhas conhecidas em itens de consumo cada vez mais sofisticados e exóticos. Tudo isso ao custo da perda de criatividade, de vivência das suas potencialidades e do partilhar de experiências de boa qualidade ambiental e social.

    Com as evidências e os estudos científicos a nos alertarem que o modelo socioeconômico e ambiental que estamos globalmente trilhando é predatório para o meio ambiente, para nós mesmos, seres humanos, e para todos os demais seres que compõem o cenário terreno, ainda assim continuamos a achá-lo bom e seguro. Ainda assim continuamos a usufruir de condições que, sabemos , vão se esgotar num futuro muito próximo, comprometendo a sobrevivência dos seres sobre o Planeta.

    Por que, então, não exercitarmos esse nosso lado inquiridor, aventureiro, transformador? Por que não sairmos em busca de novas alternativas, de novos horizontes, que nos tragam mais perspectivas e que nos ajudem a escrever a nossa história pessoal e grupal com melhor qualidade, empenho e efetividade?

    Convido você, assim, a buscar conhecer e entender melhor algumas das alternativas de viver menos impactantes ou de formas diferenciadas de vivenciar os grupos sociais, como aquelas contidas nas propostas de algumas ecovilas. No livro Um fazer diferente: vida em Ecovila, por mim escrito recentemente, muito discorro sobre essa forma alternativa de agir e de vivenciar experiências mais orgânicas e menos impactantes.

    Com certeza, ao buscar transformar algumas das velhas vertentes por que nos enveredamos, a nossa vida cria sentidos outros, mais pulsantes, mais participativos, mais perceptivos e engajados, tanto socialmente quanto ambientalmente, com resultados muito especiais, inclusive para a nossa experiência pessoal. Tente! Atire-se!

    Suzy Goldstein (www.viverdiferente.xpg.com.br)

  • Nheca!

    14

    Out
    14/10/2011 às 17h14

    Guardiães do nosso destino
    Sem maiores cuidados e criticidade, olhem só o que estamos fazendo com os nossos corpos e com o meio ambiente!

    Está aí na mídia, pra todo mundo ver, mas, incrivelmente, muito pouca atenção é dada a esse tipo de acontecimento:  Toddynho fabricado com água sanitária!

    E a explicação da empresa fabricante, a Pepsico, nos dá a dimensão do problema, de forma reversa. Segundo ela, em nota oficial, “durante o processo de higienização dos equipamentos, conforme rotina padrão, houve uma falha e uma das linhas envasou algumas embalagens com o produto usado para limpeza, à base de líquido detergente”.

     Vamos descortinar esse discurso?! Em outras palavras, o que o comunicado diz é o seguinte: existe um método de limpeza que é seguro e rotineiro na fábrica. Houve, entretanto, uma “falha” (pequena, eventual, insignificante no âmbito global) e (casualmente) uma das linhas (só umazinha e não todas, o que mostra uma enorme estratégia retórica de esvaziamento de importância do problema!) envasou algumas embalagens (novamente a estratégia de minimização do problema) com produto à base de detergente líquido! Algo restrito, eventual, pouco significativo, é o que eles querem transmitir.

    Sabem o que significa ingerir água sanitária? E como esse é um produto direcionado a crianças, foram/são elas as maiores vítimas!

    Mas sabemos que camisinhas, pelos de gatos e mais outros inúmeros itens nada higiênicos têm sido encontrados em molhos de tomates, em refrigerantes e em vários outros produtos comestíveis industrializados. Pergunto, então: por que nós continuamos a consumir esse tipo de comida? Por que não fazemos nós mesmos as nossas comidas caseiras, buscando adquirir produtos sem agrotóxicos, pesticidas ou promotores de crescimento?

    Por que aceitamos adoecer ao ingerir comida visivelmente estragada, como nos casos desses produtos contaminados, ou comprometida pelo uso de venenos? Pela facilidade de comprar as coisas prontas, alguns diriam. Pela impossibilidade de fazer a nossa própria comida, as nossas próprias coisas, diriam ainda outros. Será?

    Será assim tão difícil cozinhar alimentos de origem conhecida e próxima a nós? Será tão complicado buscar produzir aquilo de que necessitamos?

    Noutra direção, será que é tão difícil assim dizer não à exploração de mão de obra escrava ou infantil, por exemplo, ao deixar de comprar roupas e produtos em profusão, sejam eles advindos de grifes caríssimas ou a preço de banana em lojas de quinquilharias?

    O que acontece é que nos falta criticidade e determinação. Estamos perdendo a largos passos os nossos dons de criar e fazer as nossas próprias coisas; estamos perdendo a deliciosa vivência do fazermos nós mesmos o que precisamos. Estamos, com isso, nos prejudicando muito, ao ponto de adoecermos, e temos achado que o estilo de vida que levamos é correto! E sabe por quê?

    Porque aceitamos o discurso, o bombardeio mesmo, das mídias comerciais, a nos convencerem de que é chique comprar coisas prontas, ao invés de fazermos as nossas próprias coisas; que é mais “prático” adquirir tudo o que precisamos já pronto e embalado. Para que nos sobre tempo para consumir cada vez mais!? O que pergunto é: a que custo de saúde? A que custo para o meio ambiente? A que custo de perda de vivências e dons?

    Até quando vamos ser coniventes com essa engrenagem, que nos faz de marionetes de um sistema destruidor? E não é nada difícil ou penoso fazer diferente!

    No livro “Um fazer diferente: vida em Ecovila”, e aqui no blog também, muito problematizo essas questões e mostro, inclusive, alternativas de uma qualidade diferenciada para sair desse círculo vicioso e comprometedor em que nos enveredamos e sermos um pouco mais senhores do nosso destino.

    Suzy Goldstein (www.viverdiferente.xpg.com.br)

  • Oportunismo

    04

    Out
    04/10/2011 às 19h20

    Em busca de sabedoria
    Tenho afirmado neste blog, como também o fiz fartamente no livro Um fazer diferente: vida em Ecovila, que o viver simples, o consumir pouco, precisa ser assumido por todos nós, como condição para uma mudança urgente e imprescindível de paradigma no trato para com a Natureza, para com o meio ambiente, antes que ultrapassemos uma curva sem retorno, de possibilidade de reversão nos impactos ambientais que temos irresponsavelmente provocado. Temos visto muito por aqui que a falta efetiva de engajamento, de conscientização, de cada um de nós, em ações ambientais e sociais, por exemplo, tem trazido sérios malefícios para o Planeta e para a humanidade, vista em seu conjunto.

    Vejo-me, com isso, aqui e ali, confrontada com situações apresentadas, por exemplo, por programas televisivos que garantem ibope, e muito dinheiro para os seus proprietários e apresentadores, às custas do que chamam de realização de desejos de pessoas com alguma história pessoal bonita de perseverança e as abastecem com os mais variados itens de consumo. Naquele movimento por mim proposto de olhar para o que está por trás das chamadas boas intenções, gostaria de problematizar um pouquinho com você, leitor, os significados da tamanha boa vontade daqueles programas em munir as pessoas que selecionam, adequadas ao perfil por eles buscado, ofertando-lhes os mais variados “sonhos”.

    Precisamos questionar o sentido de conforto, sem nos deixar levar pelo bombardeio das propagandas, pelos engodos dos que querem lucrar, e muito, às nossas custas, e com a consciência da nossa responsabilidade para com o meio ambiente. Lembre-se de que não podemos mais nos omitir, alegando que não adianta nada mudarmos sozinhos a nossa forma de consumir. E não se esqueça de que, ao contrário do que se diz, que uma andorinha só não faz verão, quando unimos as nossas forças, fazendo, cada um de nós verdadeiramente a nossa parte, podemos “mover montanhas”.

    Tendo como base a necessidade de causarmos o mínimo de impacto à Natureza, o que seria, então, conforto para cada um de nós? A partir dessa ótica, conforto, naturalmente, deixa de ser desejar ter as mais diversas e esdrúxulas quinquilharias e passa a ser relacionado à parcimônia, ao se satisfazer com itens básicos, sem exageros. O que dizem os minimalistas é que quanto menos consumirmos, menores impactos causaremos. E esse exercício de ponderação, de reflexão e de ação nos mostra o quanto somos enganados, ao instaurarem em nós necessidades irreais, como se elas fossem imprescindíveis.

    Naqueles programas televisivos, que “realizam os sonhos das pessoas”, quando olhamos de forma um pouquinho mais crítica, o que se vê mesmo são complexas estratégias de convencimento dos telespectadores de que eles promovem assistência social, de que são bonzinhos, amigos, caridosos e por aí afora, quando em verdade lucram somas vultosas por conta do que apresentam, instaurando nas pessoas desejos cada vez mais rebuscados. Se pensarmos, entretanto, que as próximas gerações (a nossa descendência, os nossos netos e bisnetos, pensando mais proximamente) podem ter sérios problemas para sobreviver por aqui, precisamos deixar de engolir atabalhoadamente o que nos apresentam aqueles programas, as propagandas e os discursos consumistas em geral, passando a classificá-los como oportunistas e nada responsáveis para com a realidade ambiental que se tem apresentado a nós. Assim, sejamos críticos e atentos aos discursos que querem passar uma idéia de credibilidade que, se olhada com um pouco mais de cuidado, não se sustenta. E defendamos a nossa autonomia, com engajamento e ações de boa qualidade!

    Suzy Goldstein (www.viverdiferente.xpg.com.br)

  • Ecovila ou condomínio?

    27

    Set
    27/09/2011 às 17h29

    Caminhos da Ecovila
    Nas mais variadas situações já me perguntaram a diferença entre uma Ecovila e um condomínio ou conglomerado de amigos da Natureza. Posso dizer pra você, com segurança, que, embora vários dos objetivos coincidam nas duas situações, algumas diferenças são marcantes entre essas duas escolhas. Diferenças de concepção, diferenças nas vivências, diferenças nas formas de agir e mesmo de pensar sobre o mundo e as inter-relações. Senão, vejamos:

     

    Num “Condomínio de amigos da Natureza”, as pessoas estão preocupadas, sim, com a Natureza, querem preservá-la, protegê-la. Ali, talvez as pessoas construam as suas casas de uma forma menos impactante para o meio ambiente e tenham até a sua própria horta, jardins de flores ou mesmo o seu pequeno pomar. Num lugar com essas características, as pessoas vão para contemplar, para festejar, para se resguardar da loucura do mundo cotidiano, para se inter-relacionar com os seus pares de projeto e se deleitar com a tranqüilidade proporcionada pela Natureza.

     

    Mas essas características e essas ações existem também nas típicas ecovilas, diriam algumas pessoas intrigadas. Sim, é verdade.

     

    Numa ecovila, as pessoas que ali escolhem viver têm os seus deleites, curtem o contato social e amam estar em relação estreita com a Natureza. Mas elas têm, acima de tudo, o compromisso indeclinável de construir suas casas dentro dos parâmetros apontados pelos manuais de bioconstrução, sejam eles mais minimalistas - utilizando técnicas como o adobe, o cob, o pau-a-pique, o telhado-verde, o bambu etc. –, sejam eles mais tecnológicos; mas sempre atendendo às condições de menor impacto reivindicadas por aquele tipo de construção, como a utilização de mão de obra e de materiais locais, o reaproveitamento de águas usadas, a captação de água de chuva, a utilização de energias alternativas (como a solar ou a eólica, por exemplo) e mesmo a checagem das condições trabalhistas e ambientais das fábricas que fornecem materiais para as edificações. Esses são apenas alguns dos itens indicados pela bioconstrução, dentre diversos outros, componentes de uma estratégia de preservação ambiental mais pontual e acentuada.  Uma olhada em manuais de bioconstrução ou mesmo nas indicações estabelecidas na Agenda 21, documento resultante da Eco92, conferência das Nações Unidas que aconteceu no Rio de Janeiro em 1992, nos proporciona informações preciosas sobre esse tema.

     

    As pessoas que moram em uma ecovila, por outra via, estão preocupadas em desenvolver e fomentar projetos, sociais e ambientais, tanto no âmbito da própria ecovila quanto em seu entorno. Além disso, elas tendem a se envolver mais visceralmente em ações efetivas de preservação, de busca de sustentabilidade e de autonomia alimentar, por exemplo. E, o mais específico dos pontos é que elas tendem a estar sempre atentas às incoerências do modelo socioeconômico e ambiental com o qual convivemos e buscam criteriosamente construir uma comunidade mais orgânica, em um espaço físico mais preservado, mais artístico, mais holístico, enfim.

     

    Com essas características, acho mais fácil marcar o que diferencia uma ecovila de um condomínio de amigos da Natureza: o engajamento efetivo em ações e em projetos, a preocupação com o entorno, o cuidado mais acentuado com as inter-relações sociais, com o meio ambiente natural, consigo mesmo e com os outros. Enquanto em um condomínio comum, urbano ou rural, as pessoas estão mais preocupadas consigo mesmas, em busca de satisfações mais estritamente pessoais, por exemplo, numa ecovila as pessoas que para lá afluem tem o cuidado de, além de buscarem preservar a sua saúde e até desenvolver com mais detalhes a sua espiritualidade, buscar transformar aspectos do mundo cotidiano que são predatórios, para os seres humanos e para a Natureza.

     

    A partir desses dados, é razoável dizer que uma Ecovila dinâmica e ativa tende a ser um lugar que fomenta as nossas mais recônditas fantasias de encantamento e nos instiga a nos tornarmos seres mais engajados, em busca da construção de um mundo melhor e mais adequado à sobrevivência dos seres que na Terra Mãe habitam, inclusive nós.

     

  • Comida farta e boa

    20

    Set
    20/09/2011 às 18h41

     

    Horta orgânica
      

    É necessário produzir comida para todos

    Para que todos tenham acesso a comida, é necessário que ela seja barata

    Essas duas frases são cantadas aos quatro ventos, dentre outras pessoas, por pretensos arautos do igualitarismo, defensores do que chamam de uma agricultura barata e farta, muitas vezes políticos em busca de reconhecimento e adesão. Mas, olhando bem, eu também concordo com o princípio contido no cerne daquelas afirmativas; e você também concorda, eu sei. Em verdade, todo mundo tende a com elas concordar, pela lógica mais igualitária que apresentam. É importante, entretanto, olhar com cuidado para os desdobramentos que desse discurso podem acontecer.

    Semana passada, por exemplo, a senadora Kátia Abreu, que também é presidente da Confederação Nacional da Agricultura, protagonizou um episódio de agressiva discussão na audiência pública para análise da proposta de reforma do Código Florestal, que aconteceu no Senado, em face do também senador Pedro Taques e do sub-procurador da República, Mário José Gisi, utilizando exatamente essas máximas.

    A senadora, irritada com as críticas feitas pelo sub-procurador ao modelo de agricultura nacional, por ele chamada de predatória, a ele se dirigiu com os seguintes dizeres:

    Nós não estamos aqui discutindo modelo de agricultura, (...) se ela é avassaladora ou destruidora, e sim o Código Florestal e a legalização de produtores. Não quero discutir se defensivos ou agrotóxicos são bons ou não (...). O senhor ganha quase R$ 20 mil e pode comprar produtos que custam 160% a mais do que os produtos com agrotóxicos”...

    Caro leitor, a sutileza desse discurso encobre uma situação muito assustadora, que aqui gostaria de com você descortinar.

    Pelo que a senadora argumentou, respaldada por uma das possíveis leituras das frases destacadas no cabeçalho deste texto, o que importa é que a comida seja barata e que todos a ela tenham acesso; a sua qualidade, para isso, não é levada em conta. Não importa, por exemplo, que sejam usados agrotóxicos, pesticidas, herbicidas ou promotores de produção e de crescimento. Não importa que as pessoas sejam aos poucos envenenadas ou os impactos causados ao meio ambiente. O que importa, sim, nesse tipo de defesa e de mentalidade, é que haja produtos alimentícios em profusão no mercado. E sabe quem se beneficia com essa história? Principalmente os donos de latifúndios, com suas extensas terras a perder de vista, plantadas em sistema de monocultura, predatória, avassaladora e destruidora, sim! E não é por acaso que a referida senadora é presidente da Confederação Nacional de Agricultura, uma entidade infelizmente voltada para os interesses dos grandes produtores, articuladores de um enorme lobbie em seu favor.

    É claro que as frases introdutórias deste texto, que apregoam a necessidade de haver comida barata para todos, são inquestionáveis. Comida farta e boa! O sistema de produção é que está absolutamente equivocado e tendencioso, servindo a poucos, em detrimento de muitos.

    Se a terra fosse aproveitada de outra forma, com um raciocínio mais holístico, voltado para uma agricultura menos predatória, mais familiar, mais orgânica, como acontece nos sistemas permaculturais, por exemplo, haveria sim, comida barata, farta e saudável para os seres humanos, a maioria deles. Para isso, precisamos desenvolver a nossa capacidade de aproveitamento racional do solo, com uma mentalidade mais coletivista e menos predatória.

    Utopia? NÃO! Desde que aprendamos a nos mobilizar, a criar alternativas, a querer mudar o estado de coisas com o qual hoje lidamos. Alternativas há; e elas são múltiplas! A proposta de viver em Ecovilas atende a esse propósito; a formação de comunidades mais sustentáveis respalda esse raciocínio. Discorro sobre isso fartamente no livro que recentemente escrevi, de título “Um fazer diferente: vida em Ecovila” e também aqui no blog.

    Suzy Goldstein (www.viverdiferente.xpg.com.br)

  • Panacéia

    13

    Set
    13/09/2011 às 19h32

    Olhando para o nosso interior
    Recebi um e-mail recentemente, que mostrava uma pretensa panacéia da tecnologia: a projeção de imagens em um prédio da cidade de Berlim, na Alemanha, com o título “Show na fachada de prédio em Berlim: computação gráfica impressionante (3D sem óculos!)”. Com direito inclusive a contagem regressiva, centenas de pessoas assistiram boquiabertas ao espetáculo, incrédulas com a apresentação da “maravilha”. Dentre as animações cuidadosamente escolhidas, um robô que cumprimentava a todos e lhes desejava um bom dia (em alemão); um fundo de mar cheio de tartarugas e de baleias gigantes; cenas de patinação no gelo; paisagens de floresta, com muitas borboletas e por aí afora. Ao final, uma mensagem da LG: “LG Optimus optimize your life”. E muitos aplausos encantados, seguidos da descida de diversos balões e de pequenos bonecos verdes da LG, apresentados com orgulho por aqueles que os conseguiram disputar e pegar no ar a uma câmera que circulava entre a multidão. Para quem quiser assistir ao vídeo no youtube, a sua nomeação é LG Optimus Hyper Facade in Berlin – Long Version.

    Gostaria, entretanto, de problematizar com vocês os sentidos, os objetivos e as repercussões de shows como aquele, para entendermos melhor o lugar, por nós ocupado, nesses jogos de convencimento, uma vez que muito estudei sobre esse tema, tendo inclusive feito o meu doutorado ligado a esse aspecto, pode ser?

    Como disse, aquela apresentação foi ali pontualmente considerada uma “panacéia da tecnologia”. E quem estava por trás da demonstração? A LG fazendo propaganda dos seus produtos, em busca da renovação continuada do seu reconhecimento enquanto empresa de tecnologias de ponta, reiterando a sua competência e fomentando as suas vendas. O mais marcante, entretanto, foi ver os espectadores com os olhos brilhando e estarrecidos com a engenhosa novidade; felizes por assistir a algo novo, impactante do ponto de vista tecnológico e excitante para os sentidos, mas sem se atinar para os significados daquela apresentação. Cá para nós, verdadeiras marionetes da propaganda, meio robotizados e sem maiores filtros críticos para os objetivos da LG e da indústria de tecnologias, de forma mais genérica, naquela situação.

    Com esta constatação, dá pra ver que lá estão as pessoas a serem bombardeadas pelo fomento indiscriminado, insistente e sem barreiras para o consumo e a busca de confortos e prazeres, sem ao menos se darem conta da sutileza daquelas estratégias (dê uma olhada na expressão daqueles rostos e constate o que aqui afirmo). Ter a última novidade e participar do frenesi de aquisição, de tecnologias e dos chamados confortos, têm sido condições determinantes/determinadas para o reconhecimento social e mesmo para a auto-estima. Essas convicções sobre consumo, confortos e prazeres são, inclusive, forte motivo (pasmem aqueles que disso ainda não se deram conta!) de depressões, tristezas e falta de motivação para viver, que lotam os consultórios de psicólogos e terapeutas, quando as pessoas não conseguem alcançar aqueles patamares.

    Pergunto, entretanto: por que nos deixamos levar por tais parâmetros manipulativos? Por que nos deixamos convencer de que essas novidades, esses confortos, essas aquisições são tão importantes e mesmo imprescindíveis, se sabemos que a produção industrial desenfreada, a emissão de CO2 e de diversos outros gases tóxicos na atmosfera ou a produção absurda de lixo que estamos a respaldar, dentre diversos outros fatores nessa mesma linha, agridem ao meio ambiente de forma irreversível e provocam insatisfações profundas, em última instância, pela insaciabilidade que desencadeiam nos seres humanos bombardeados por esse sistema ideológico!?

    Pensemos nisso com muito cuidado e vejamos em que medida queremos participar desses jogos de convencimento, manipulativos, que tanta destruição provocam. Sejamos, isso sim, sujeitos mais conscientes, críticos e mais capacitados para guiar as rédeas do nosso destino enquanto humanidade, cada um de nós fazendo a nossa parte.

    Suzy Goldstein

     

  • Vibrando juntos

    06

    Set
    06/09/2011 às 17h55

    Vibrando juntos
    Tem um livro chamado “A profecia celestina”, que considero uma leitura muito significativa, quando olhamos para as inter-relações humanas do ponto de vista dos seus deleites, seus problemas ou seus desfechos. Nele, é contada uma história de fomento entre as pessoas e aqui vou apresentar algumas dessas características pra vocês. O que se depreende dali é que os relacionamentos podem seguir grandes linhas, que oscilam entre a doação, a competição ou a troca, passando por situações bastante corriqueiras do que se pode chamar de “sugação”.

    Assim, nas inter-relações muitas e muitas vezes acontece de um dos envolvidos – e olhemos aqui para o relacionamento matrimonial, especificamente – ser uma pessoa pouco ativa, que quer receber tudo nas mãos e doa realmente muito pouco de si. Sabem aquelas pessoas para quem parece que o Universo existe para satisfazê-las?! E, se algo não funciona da forma como querem são verdadeiros dragões! Todos nós conhecemos bem esse perfil, não é? Eles existem, aos montes, muito próximos a nós. Para esse tipo característico, o Outro pouco importa, porque o importante mesmo são os seus próprios desejos, costumes, intenções ou interesses. Para satisfazer os seus próprios objetivos, essas pessoas justificam todas as suas artimanhas e ainda cobram dos parceiros e pessoas próximas mais atenção. O mais impressionante é que elas não se revelam apenas nas relações matrimonias ou familiares, mas em qualquer tipo de inter-relações.

    Por outro lado, existem as pessoas que são tipicamente doadoras. Para elas, fazer o Outro feliz, deixar o seu entorno em harmonia ou ponderar sobre cada uma das situações para que o ambiente vibre numa energia mais especial é a grande meta, sempre. Vocês também conhecem pessoas assim, não é? Não são tantas como aquelas do perfil anteriormente descrito, mas as encontramos por toda parte.

    Diz o livro “A profecia celestina” que as energias de competição ou de “sugação” são bastante malfazejas e dá para entender muito bem o porquê disso. O que aquela história mostra é que a doação é uma atitude e, essencialmente, um princípio que, se fomentado, pode mudar os rumos dos mais diferentes tipos de inter-relações. Assim, uma doação verdadeira, autêntica, desinteressada pode transformar tanto uma relação matrimonial ou familiar - tornando-a cheia de significados mais sublimes - quanto as inter-relações comunitárias, ou mesmo outros âmbitos mais difusos, como nas relações de trabalho ou de convivência social mais amplas.

    Imaginem aí uma comunidade em que todos os seus componentes sintam o prazer, e mesmo o dever, de fazer a sua parte, de doar sempre, cotidianamente, um pouco de si para a coletividade! As estatísticas mostram que são as comunidades com essa característica que florescem e são muito profícuas. Em contrapartida, as inter-relações em que não há esse tipo de vontade normalmente são problemáticas e nada profícuas.

    O ápice daquela bela narrativa, que é “A profecia celestina” é quando a história revela que nas inter-relações, seja no matrimônio ou em qualquer outro tipo de convivência, o movimento mais especial, significativo, belo e sublime é aquele dos seres humanos se unindo para vibrar todos numa mesma energia de doação, o que se constitui, em essência, numa troca de boas energias, fomentadora dos mais diversos tipos de alegria e resultados.

    Pena que esse não é um movimento que vemos com muita freqüência na nossa sociedade; o que impera, mesmo em projetos que se querem diferenciados e transformadores, é uma energia de competição, e até de destruição, das iniciativas de boa qualidade ou dos movimentos de doação. Nessa perspectiva, o que importa é a projeção individual, é a manipulação, é o engodo. São, enfim, os jogos de poder. Discorro sobre esse acontecimento no meu livro “Um fazer diferente: vida em Ecovila”.

    Mas em essência cada um de nós almeja viver num ambiente de maior harmonia e, quiçá, de doação. Faltam, entretanto, iniciativas individuais e coletivas mais efetivas nessa direção. Vejam, por exemplo, um vídeo do youtube, de título “Mukhtars Fфdselsdag – Flash mob – Bedre bustur”, no endereço http://www.youtube.com/watch?v=xgOyTNtsWyY, em que várias pessoas se juntaram para fomentar esse tipo de vibração. Duvido que você não chore! O que demonstra que essa é a nossa essência, mesmo. Assim, mãos à obra! Façamos, cada um de nós, a nossa parte! Em prol de construirmos uma vida mais significativa e mais bela, para nós mesmos e para os nossos pares!

     

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